Cairo 678

•05/04/2012 • Deixe um comentário

A Primavera Árabe, ao derrubar longas ditaduras que mantinham a população sob um permanente estado de vigilância, permitiu o florescimento de uma série de manifestações culturais voltadas para a abertura política e a participação democrática, sempre com ênfase no seu distanciamento dos grupos islâmicos fundamentalistas até então predominantes nos movimentos de oposição. Nesse contexto, surgiram os primeiros filmes árabes pós-revolução, já livres o suficiente para criticar a realidade de países marcados pelo desemprego, má distribuição da imensa renda advinda dos recursos naturais e ausência de direitos que em outras regiões do mundo já estão estabelecidos há décadas.

Algumas dessas produções foram exibidas no Festival de Cinema do Rio do ano passado, como esse filme egípcio que denuncia a humilhante situação das mulheres em uma sociedade fortemente machista e patriarcal. Foca em três personagens que, assim como outras centenas de jovens, sofrem com a rotina de abusos em ônibus e com várias outras formas de assédio sexual agressivo, em qualquer lugar em que se encontram: nas ruas, nos táxis, em repartições públicas e até mesmo no local de trabalho. Intimidadas por um círculo social francamente misógino, elas não encontram suporte nem nas próprias famílias. Sem conhecerem meios para se defender, tornam-se pessoas instrospectivas, com baixíssima auto-estima e, obviamente, infelizes.

Uma delas, entretanto, decide criar um grupo de apoio às vítimas, onde ela desenvolve um trabalho para que essas pessoas tragam à tona as situações que vivenciaram e lutem pelo respeito que merecem, mesmo que para isso tenham que enfrentar descrédito, hostilidade e opiniões medievais como aquela que motivou as passeatas Slut Walk em todo o mundo: “se você realmente passou por isso é porque você incitou o homem através de suas roupas ou de seu comportamento”. Elas passam a portar armas leves, como agulhas e pequenos punhais, e reagem aos ataques, chamando atenção da polícia e jogando o assunto na mídia.

É uma ótima maneira de demonstrar que não basta uma mudança no âmbito político para que os hábitos culturais arraigados pelos séculos sumam de uma hora para outra, como se a existência de eleições diretas para presidente fosse automaticamente transformar os cidadãos em pensadores livres com idéias progressistas. Ao contrário, é preciso um enorme esforço para que seja construída em sua base uma sociedade efetivamente menos desigual e mais tolerante, missão para a qual esse filme certamente fez sua contribuição.

Título Original: 678
Direção: Mohamed Diab
País: Egito
Duração: 100 minutos
Ano: 2010

O Artista

•25/03/2012 • Deixe um comentário

É preciso realmente muita coragem para lançar um filme mudo e preto-e-branco em uma era marcada pelos avanços tecnológicos de imagem e som, cuja aclamação costuma cair sobre ícones do cinema-vertigem, como Senhor dos Anéis e Avatar, ainda mais no momento ascendente da onda 3D. Os sete prêmios BAFTA, o prestigioso prêmio de melhor ator do Festival de Cannes e os cinco Oscars, entretanto, mostram que essa aposta foi muito bem sucedida. Revisitando a linguagem da aurora da sétima arte, o diretor trouxe à vida não apenas uma técnica, mas toda uma época de glamour saudosista que encanta e diverte.

Na trama, um consagrado ator de cinema mudo vê o surgimento do cinema falado. Bastante seguro de si e das obras em que atua, ele desdenha da inovação, e essa arrogância o impede de dar credibilidade à verdadeira revolução que se desenrola diante de seus olhos. Em pouco tempo, passa do estrelato ao ostracismo, e logo tem que aprender a lidar com a depressão e com os problemas financeiros. Paralelamente, uma jovem atriz, cuja entrada no show business ele mesmo proporcionou, vive a ascenção meteórica de sua carreira. Antigos amantes, são separados por uma geração e pela fama, mas isso não a impede de tentar ajudá-lo a superar a má fase.

Apesar de mudo, o filme não é nada silencioso: além da trilha sonora instrumental harmonizada com as cenas, responsável por grande parte da beleza da obra, não deixam de ser utilizadas algumas sonoplastias incidentais quando isso representa uma necessidade da própria narrativa, como quando é preciso deixar explícita a ruptura entre o passado e o presente repleto de sons e música. Essa característica somada à abordagem claramente metalingüística são, evidentemente, um afastamento consciente da linguagem original que pretende representar, mas permite uma proximidade e uma compreensão significativamente maiores ao expectador moderno do que seriam se fosse feito de outra forma.

Roupas, veículos e cenários ajudam a recriar o ambiente ideal para que o estilo assuma sua forma e, assim como nos filmes de Chaplin, a ausência de falas traz uma importância muito grande às seqüências, aos gestos e às expressões, pois eles são secundados apenas por esporádicas caixas de texto entre uma cena e outra. Por causa disso, várias idéias devem ser passadas confiando-se apenas na comunicação humana que independe de idioma, e sempre impressiona ver a quantidade de emoção que pode ser percebida sem que uma única palavra seja dita.

Título Original: The Artist
Direção: Michel Hazanavicius
País: França / Bélgica
Duração: 100 minutos
Ano: 2011

Tartarugas Podem Voar

•15/03/2012 • Deixe um comentário

Na fronteira entre o Iraque e a Turquia, na inóspita região do Curdistão, um grupo de órfãos de guerra luta para sobreviver em um acampamento de refugiados onde praticamente não há adultos. Abandonadas à própria sorte, as crianças mais velhas responsabilizam-se pelas mais novas, tirando seu sustento da inacreditável tarefa de percorrer campos minados para desenterrar os artefatos explosivos e vendê-los no mercado negro. O trabalho é organizado por um adolescente extrovertido que, devido a seu parco conhecimento de inglês e de instalação de antenas parabólicas, torna-se uma espécie de líder comunitário.

A história se passa nas semanas que antecederam a invasão estadunidense ao Iraque, movimento que depôs o ditador Saddam Hussein, cujo partido Baath era o principal responsável iraquiano pelas sagrentas perseguições aos curdos. Foca-se em três crianças da mesma família: uma menina, mais velha, um menino e um bebê, sendo os dois últimos deficientes físicos. Impressiona o incomensurável esforço empreendido para a sobrevivência em um ambiente onde tudo é escasso. Dormindo em barracas desconfortáveis, sem acesso razoável a água ou a comida, as pessoas são jogadas quase ao estado de natureza, exatamente na idade em que a mentalidade do ser humano é formada.

A partir dessa visão, é possível perceber a enorme distância que existe entre as decisões governamentais tomadas em nível macro e a rotina das pessoas que vivem à margem de qualquer tipo de auxílio ou de jurisdição efetiva de um estado. Por mais que, em última análise, suas vidas sejam o resultado de conflitos que sequer compreendem, o movimento contrário, de melhoria concreta através da interrupção de hostilidades, passa ao largo de qualquer visão imediata possível.

É evidente que não se pode esperar uma produção com a qualidade técnica à qual o cinema mundial já chegou, até mesmo porque este foi o primeiro filme produzido pelo Iraque após a mudança de regime e utilizou refugiados reais, e não atores, nas filmagens. Entretanto, o realismo apresentado e suas emoções associadas ultrapassam em muito o necessário para uma obra ser bem classificada.

Título Original: Lakposhtha parvaz mikonand
Direção: Bahman Ghobadi
País: Irã / França / Iraque
Duração: 98 minutos
Ano: 2004

O Homem que Virá

•05/03/2012 • Deixe um comentário

O grande dilema dos filmes de gênero é ter de viver no exíguo espaço que existe entre a realização do leitmotif, recriando as características que cativam os fãs do estilo para atender suas expectativas, e a necessidade de gerar conteúdo inovador, para fazer com que a obra se destaque das demais. Quem assiste a um filme de guerra, por exemplo, espera encontrar vários elementos que o qualificam como tal, mas também não quer apenas rever as mesmas situações e desdobramentos, por melhores que sejam. Existe um esforço para fazer com que o desenvolvimento seja equilibrado o suficiente para satisfazer tanto um lado quanto o outro. Por causa disso, todo trabalho desse tipo é, antes de tudo, um prisioneiro de si mesmo.

Isso não significa, entretanto, que o filme não seja bom. Pelo contrário: muitos alcançaram o nível elevado de qualidade exatamente por encontrar a fórmula que sintetiza o legado e a inovação. No caso específico deste, a história se passa em uma comunidade rural italiana nos idos de 1943, quando toda a Europa estava engolfada no terror da Segunda Guerra Mundial. Como o país era governado por fascistas aliados à Alemanha, as tropas nazistas tinham livre trânsito em todo o território, causando pânico e ressentimento nos moradores, e entrando em confronto direto com a Resistência Italiana que se desenvolveu na região.

Os elementos típicos dos filmes de guerra estão lá: a violência, o medo, a escassez de bens, a arbitrariedade do invasor. O ponto diferencial, porém, é o fato de a narrativa seguir a visão da filha caçula de uma família numerosa, para quem os eventos são completamente desprovidos de significado. Bastante introspectiva, não faz idéia de que existe uma guerra em andamento. Os soldados alemães e os guerrilheiros italianos são apenas estranhos que vêm e vão, e sobre os quais os pais conversam em termos incompreensíveis. Muito mais próximos estão a rotina da casa, sua mãe grávida e “homem que virá”, seu irmão nascituro. Apesar de tentarem manter o clima de normalidade, aos poucos os efeitos da guerra são sentidos, até o ponto de afetarem de vez o círculo imediato da menina.

O foco nos camponeses afastados do teatro dos grandes eventos é também uma diferenciação em relação aos demais filmes que representam o período, geralmente ligados ao campo de batalha, a prisioneiros ou a centros urbanos. Mostra, assim, como um conflito dessa magnitude atinge de forma cruel a vida de todas as pessoas, independentemente de estarem diretamente envolvidos nas razões dos acontecimentos ou de seguirem um modo de vida simples desvinculado de idéias políticas ou militares.

Título Original: L’uomo che verrà
Direção: Giorgio Diritti
País: Itália
Duração: 115 minutos
Ano: 2009

Do Outro Lado

•15/02/2012 • Deixe um comentário

Do mesmo diretor de outro filme que já comentei aqui (Contra a Parede), este segue os passos de um jovem turco em busca da filha da namorada de seu pai, a quem se sente vinculado após uma série de eventos desagradáveis deixarem-na sozinha no mundo. Preocupado com ela e disposto a pagar seus estudos, ele sai da Alemanha, onde mora, e retorna a Istambul, porém descobre que a moça pertence a uma organização radical de esquerda considerada terrorista pelo governo local e que, por causa disso, saiu de casa há meses e vive na clandestinidade sem dar notícias. Sem desanimar, ele envolve os parentes, espalha cartazes e resolve permanecer na cidade até cumprir seu objetivo. Nesse ínterim, entretanto, ela decide procurar a mãe e parte para a Alemanha ilegalmente, no mesmo momento em que o outro protagonista percorre o caminho inverso. As narrativas paralelas envolvem uma série de personagens em comum que, curiosamente, não têm consciência da rede de relacionamentos cruzados e do desencontro no qual estão inseridos. Levou o prêmio de melhor roteiro do Festival de Cannes de 2007.

Além de tratar dos fatos concernentes aos personagens em si, o filme trabalha com o pano de fundo da ligação sentimental genuína que existe entre o indivíuo e sua pátria de origem, mostrando que mesmo as pessoas mais adaptadas continuam vivendo de acordo com as crenças com as quais foi criado e mantendo antigos hábitos, como o uso do idioma nativo. O protagonista, estabelecido em Bremen desde novo e com um emprego invejável, revisita intimamente sua relação com o país natal, assim como um outro personagem, alemão, sente-se impelido a voltar para casa após anos de uma vida confortável na Turquia. Esse toque de saudosismo e de identificação cultural é ainda mais marcante pelo enorme contraste entre os dois países, que diferem em etnia, religião, tradições e vários outros aspectos.

A idéia de mostrar desdobramentos de vidas desestruturadas traz à tona outros assuntos, como o convivência entre pais e filhos, relacionamentos amorosos, abandono e solidão, tornando a trama mais complexa e, por esse motivo, mais interessante de se acompanhar. A abordagem múltipla de temas é feita com cenas que se complementam pela visão diferenciada de cada personagem. Nessa perspectiva, a capacidade de enxergar “do outro lado” permite a compreensão não só do estrangeiro, mas também da própria sociedade e da própria vida.

Título Original: Auf der anderen Seite
Direção: Fatih Akin
País: Alemanha / Turquia
Duração: 116 minutos
Ano: 2007

A Pele que Habito

•05/02/2012 • 1 Comentário

Como fã de Almodóvar, não posso deixar de comentar seu último trabalho, a respeito de um renomado cirurgião que, recluso em sua mansão convertida em laboratório, desenvolve uma pele sintética resistente a queimaduras e a picadas de insetos. O médico, cujo comportamento é circunspecto e obsessivo, tem como única cobaia uma mulher mantida presa em um quarto no andar superior da casa, constantemente monitorada por câmeras de segurança. A princípio não fica claro se ela está lá por vontade própria ou não e, para escapar do tédio e da solidão, ela pratica ioga, lê, assiste televisão e mantém uma espécie de diário através de palavras desconexas escritas na parede.

É claro que temos que ser tolerantes com a idéia esdrúxula de um pesquisador solitário criando uma inovação tecnológica revolucionária, nos moldes do “cientista maluco”. Ligada diretamente ao cuidado do laboratório há apenas uma governanta, que faz as vezes de confidente e de carcereira. É sabido que uma pesquisa desse tipo envolveria dezenas de colaboradores e precisaria de investimentos cuja magnitude ultrapassa bastante o que uma pessoa sozinha é capaz de disponibilizar. Mas isso logo fica em segundo plano, pois o foco do filme não é a ciência em si, e sim o relacionamento tortuoso entre os protagonistas: uma confusão de amor e raiva, de dependência e ressentimento, de luta entre a sanidade e a subjugação psicológica. A rotina metódica e os diálogos cordiais são imersos em um ambiente permanentemente tenso, e só aos poucos os motivos daquela situação vão sendo revelados, em desdobramentos surpreendentes.

Não achei que é um filme típico do diretor, devido ao clima sombrio e às vezes explicitamente perverso, beirando o gênero do terror. Em suas outras obras há uma sexualidade espalhafatosa e uma certa lente cômica, como em Tudo Sobre Minha Mãe. E, apesar de a violência e o desequilíbrio emocional também serem abordados, esses elementos são normalmente mostrados como frutos do submundo de drogas e de prostituição, e não de uma ação intencional continuada de um personagem. Ainda que a relação entre raptor e raptada já tenha sido tema em Ata-me, é essa interpretação que entra como uma tentativa de sair do lugar-comum e de explorar uma vertente ainda não trabalhada.

Título Original: La Piel que Habito
Direção: Pedro Almodóvar
País: Espanha
Duração: 117 minutos
Ano: 2011

Manderlay

•25/01/2012 • Deixe um comentário

Esta é a seqüência de Dogville, onde a jovem fugitiva Grace, assustada e inocente, é arrastada para uma dura rotina de humilhações em uma pequena cidade que inicialmente a acolhe, mas que aos poucos se revela mesquinha e cruel. Neste segundo filme, logo após sair de seu cativeiro, ela chega à isolada localidade de Manderlay, para lá encontrar uma situação inacreditável: mesmo após setenta anos da abolição da escravatura nos Estados Unidos, a fazenda de algodão continua funcionando com negros escravos, controlados por uma família de proprietários brancos, que impedem os moradores de descobrir que as leis no país já haviam mudado há bastante tempo.

Indignada com o que vê, Grace utiliza o imenso poder das armas disponibilizado por seu pai gângster para derrubar o regime vigente e mostrar para as pessoas que um novo modo de vida, baseado na igualdade e na democracia, não só é possível como deve ser implementado imediatamente. Com esse intuito, ela abole o intrincado conjunto de regras compiladas em um livro denominado “Mam’s Law” e instaura um conselho com os ex-escravos para que eles próprios ditem os rumos de suas vidas. O esforço nobre, entretanto, encontra séria resistência no descrédito, na apatia e na desorientação daquele grupo que até então vivia sob o jugo de um sistema opressor da consciência que sua libertadora tentava estimular, fazendo com que ela questionasse a validade de seus atos. A trama também flerta com o tabu do sexo inter-racial (sim, para eles isso ainda é um tabu) e com a idéia de que a manutenção de um sistema desigual pode ser útil pela estabilidade que constrói, contrariando os supostos valores americanos. A história completa seria uma trilogia se o terceiro filme, Wasington, não tivesse sido adiado por tempo indeterminado em 2007.

O diretor dinamarquês segue a mesma cenografia minimalista que consagrou o primeiro filme, substituindo mobílias e construções por simples riscos no chão liso, além de uma economia extrema de objetos, fazendo com que o visual se aproxime mais de uma peça de teatro do que de uma obra cinematográfica. A iluminação, a mise en scène e a divisão em capítulos reforçam o paralelo. Se isso tira um pouco do glamour por expor a linguagem, tem a vantagem de explicitar a ficção e, ao mesmo tempo, colocar o foco do expectador nas atuações e no enredo, o que certamente é mais significativo.

Vale lembrar que Lars von Trier foi o diretor declarado persona non grata em Cannes, onde estava para lançar seu sonolento Melancolina, ocasião em que manifestou sua estúpida simpatia pelo líder nazista Adolf Hitler. Mesmo com as várias retratações subseqüentes, dificilmente um novo trabalho seu terá uma interpretação desconectada dessas afirmações, especialmente se abordar a temática racial de alguma forma.

Título Original: Manderlay
Direção: Lars von Trier
País: Dinamarca
Duração: 139 minutos
Ano: 2005

 
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