A Primavera Árabe, ao derrubar longas ditaduras que mantinham a população sob um permanente estado de vigilância, permitiu o florescimento de uma série de manifestações culturais voltadas para a abertura política e a participação democrática, sempre com ênfase no seu distanciamento dos grupos islâmicos fundamentalistas até então predominantes nos movimentos de oposição. Nesse contexto, surgiram os primeiros filmes árabes pós-revolução, já livres o suficiente para criticar a realidade de países marcados pelo desemprego, má distribuição da imensa renda advinda dos recursos naturais e ausência de direitos que em outras regiões do mundo já estão estabelecidos há décadas.
Algumas dessas produções foram exibidas no Festival de Cinema do Rio do ano passado, como esse filme egípcio que denuncia a humilhante situação das mulheres em uma sociedade fortemente machista e patriarcal. Foca em três personagens que, assim como outras centenas de jovens, sofrem com a rotina de abusos em ônibus e com várias outras formas de assédio sexual agressivo, em qualquer lugar em que se encontram: nas ruas, nos táxis, em repartições públicas e até mesmo no local de trabalho. Intimidadas por um círculo social francamente misógino, elas não encontram suporte nem nas próprias famílias. Sem conhecerem meios para se defender, tornam-se pessoas instrospectivas, com baixíssima auto-estima e, obviamente, infelizes.
Uma delas, entretanto, decide criar um grupo de apoio às vítimas, onde ela desenvolve um trabalho para que essas pessoas tragam à tona as situações que vivenciaram e lutem pelo respeito que merecem, mesmo que para isso tenham que enfrentar descrédito, hostilidade e opiniões medievais como aquela que motivou as passeatas Slut Walk em todo o mundo: “se você realmente passou por isso é porque você incitou o homem através de suas roupas ou de seu comportamento”. Elas passam a portar armas leves, como agulhas e pequenos punhais, e reagem aos ataques, chamando atenção da polícia e jogando o assunto na mídia.
É uma ótima maneira de demonstrar que não basta uma mudança no âmbito político para que os hábitos culturais arraigados pelos séculos sumam de uma hora para outra, como se a existência de eleições diretas para presidente fosse automaticamente transformar os cidadãos em pensadores livres com idéias progressistas. Ao contrário, é preciso um enorme esforço para que seja construída em sua base uma sociedade efetivamente menos desigual e mais tolerante, missão para a qual esse filme certamente fez sua contribuição.
Título Original: 678
Direção: Mohamed Diab
País:
Egito
Duração: 100 minutos
Ano: 2010



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